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Santana do Paraíso, 23 de outubro de 2017
Você sabia? A região de Santana do Paraíso começou a ser povoada em 1809
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História

História

por Jakson Goulart

22/08/2011 16:30

Uma história ‘escrita’

no lombo e no remo

Antes da indústria, tropeiros e boteiros deram impulso ao desenvolvimento de Santana do Paraíso

 

De região inóspita a um município industrializado, Santana do Paraíso é considerado o “caçula” da Região Metropolitana do Vale do Aço. Apesar de ter se emancipado somente em 1992 (dia 28 de abril), a cidade guarda muitas histórias e é um exemplo da luta dos desbravadores que chegaram à região alguns séculos atrás.

No reinado de Dom João VI, a atual cidade de Santana do Paraíso era uma região inóspita, que foi entregue às autoridades portuguesas como parte do projeto de “civilização” dos nativos Nack-ne-nuck, índios bravios descendentes dos Aimorés, do grupo Tapuia e do tronco linguístico Macro-Jê. 

Em 1809, Dom João VI determinou a ocupação dessa região por tropas nacionais e, na divisão, as terras do município passaram a pertencer à 1ª Divisão Militar do Rio Doce. Essa Região Militar foi entregue a Antônio Rodrigues Taborda, que comandava ações de ocupação de terra e combatia a resistência dos índios, apelidados de “botocudos” devido aos ornamentos que utilizavam, principalmente nos lábios.

A administração das Regiões Militares, porém, revelou-se um grande fracasso. Conforme o historiador Osvaldo Aredes Louzada Filho, a maior dificuldade na época era encontrar homens para adentrar a densa mata, enfrentar os índios e a febre, o que fez com que o rei de Portugal reestruturasse as Divisões Militares, nomeando o francês Guido Marliére como administrador geral do Rio Doce, a partir de 1819.

 

Tropeiros

O historiador sustenta que o processo de ocupação de Santana do Paraíso é mais antigo que o dos demais municípios do Vale do Aço. O território da margem esquerda do rio Doce (a oeste do rio) esteve ligado diretamente à fase áurea da mineração em Minas Gerais, e tinha no município de Ferros – ao qual o então distrito de Sant’Anna pertencia, entre 1892 e 1923 – uma referência para os moradores da região.

No final do século XIX, o local onde se construiu a cidade não passava de um ponto de tropeiros que faziam a rota ligando a região do Calado, atual Coronel Fabriciano, ao município de Ferros. As tropas, vindas geralmente de Antônio Dias, passavam pelo Calado e por Barra Alegre (atual distrito de Ipatinga), e, para seguir até o Achado, tinham que passar pelo então povoado de Taquaraçu, subindo a Serra do Chico Lucas e seguindo viagem em direção a Ferros.

A cachoeira do Engelho Velho, ou Taquaraçu, no centro da cidade, próximo ao local onde hoje se situa o prédio da Prefeitura Municipal, era a preferida pelos tropeiros para o seu descanso. Ao longo dos anos as tropas foram aumentando, e a margem da cachoeira acabou se transformando num importante centro comercial.

 

Ciclo Econômico

De acordo com Osvaldo Aredes, os tropeiros foram os principais responsáveis pelo ciclo econômico de Santana do Paraíso, que atualmente possui várias indústrias e o único aeroporto do Vale do Aço. As cachoeiras eram – e continuam sendo, alguns séculos depois – o ponto de referencia mais significativo da região, “comprovando, assim, o privilégio de possuir recursos naturais mais significativos que os municípios vizinhos”.

A “Fazenda da Cachoeira do Engenho” teria sido o primeiro centro comercial de Santana do Paraíso, com moinho e máquinas de limpar café e arroz. Logo surgiram outros armazéns de cereais e novos moradores começavam a chegar, motivados principalmente pela beleza do lugar e pela fartura da caça e da pesca.

O primeiro nome da cidade, Taquaraçu, homenageava um tipo de vegetação muito comum, e que significa “grande bambu”. O território do atual município pertenceu antes à Itabira do Mato Dentro, e foi elevado a distrito em 1892.

 

Boteiros

No início do Século XX, com a chegada da Estrada de Ferro Vitória Minas, a região passou a experimentar um grande crescimento demográfico, com o aumento considerável de fazendeiros e de produtores rurais que sonhavam escoar a produção agrícola pelo caminho de ferro em direção a Itabira e a Figueira do Rio Doce (atual Governador Valadares).

A linha férrea passava pelo “Porto do Sal”, atual bairro de Ipaba do Paraíso, que se transformou num grande entreposto comercial no final do século XIX. Nessa época, em vez dos tropeiros, destacavam-se os boteiros, responsáveis pelo transporte de mercadorias, que atendiam, ainda, todo o extenso município de Caratinga.

Depois de construída a ferrovia, o atual bairro conhecido como Ipabinha ganhou mais importância comercial. Foi dali que partiram os homens que construiriam a Estação de Pedra Mole, que depois daria origem ao município de Ipatinga.

 

Siderurgia

Em 1923, Minas Gerais sofreu uma nova subdivisão territorial, e o então distrito de Conceição de Mato Dentro foi anexado ao município de Mesquita. Nesse período, Santana do Paraíso local viveu uma fase de estagnação, até a chegada da siderurgia à região, primeiro com a construção da Acesita, em meados dos anos 40, e depois da Usiminas, no final dos anos 50. No território de Santana do Paraíso foi construído o aeroporto da Usiminas, juntamente com o Distrito Industrial, que hoje abriga um grande número de empresas às margens da BR-381.

A partir da sua emancipação, no dia 28 de abril de 1992, Santana do Paraíso começou a viver mais um ciclo econômico, com aumento do número de indústrias e um grande crescimento da sua área urbana, através da formação de novos bairros e loteamentos feitos por empresas do setor imobiliário. 

(Texto: Jakson Goulart)

 

HISTÓRIA

ENTRE OS PIONEIROS, UMA EX-ESCRAVA

 

Apesar de sua antiga história, Santana do Paraíso guarda poucas recordações do início da sua ocupação. Moradores mais antigos ajudam a cuidar da memória da cidade, preservada muito por meio da oralidade, enquanto a Administração Municipal tenta recuperar o tempo perdido. Uma das primeiras medidas foi a reativação do seu Conselho do Patrimônio Histórico e Cultural, na gestão 2005-2008.

Dos personagens históricos da cidade, um dos mais conhecidos é Maria Isabel Rainha do Porto, a “Cecília Preta”, como era mais conhecida. Dizem os mais antigos que essa ex-escrava, libertada pela Lei Áurea, era muito respeitada pelos moradores, aos quais gostava de contar histórias do seu tempo.

 

Pioneiros

Outro nome muito conhecido da população é o de Manoel Carlos, dono da primeira loja da cidade, que abastecia com tecidos, calçados e outras mercadorias que, até então, eram buscadas, em lombos de mulas, em algumas cidades da região. Também eram dessa época Amâncio Daniel de Oliveira, José Soares (Juca Soares), Francisco Máximo, Manuel Messias, Virgínia Messias, Joaquim Jerônimo e Neftaly Caetano Assunção, outros nomes sempre lembrados.

A história de Santana do Paraíso registra ainda como pioneiros Salvelino Fernandes Madeira, um dos primeiros habitantes do Córrego Soveno, hoje bairro São Francisco; Elias Matias de Oliveira, comerciante e fazendeiro; João Moço, um do primeiros donos da Cachoeira do Engenho; Joaquim Gonçalves, um dos primeiros habitantes do Achado; Pedro Soares de Oliveira, um dos grandes incentivadores dos esportes; Antônio Félix Damasceno (Tilim), primeiro Presidente da Conferência de São Vicente de Paula; e Teresa Serápia Almeida, primeira agente dos Correios.

 

 

HISTÓRIA

A PADROEIRA DE MARLIÈRE

 

A história de Santana do Paraíso – como de outros municípios do Vale do Aço – está diretamente ligada a um certo capitão francês, que ajudou a desbravar áreas inóspitas e a “pacificar” os índios que ocupavam a região, e que, por sua importância histórica, acabou inspirando nomes de cidades, ruas e avenidas.

Trata-se de Guido Marlière, que chegou ao Brasil em 1808, acompanhando a corte de Dom João VI, que então fugia de Napoleão Bonaparte, e que acabou, onze anos depois, nomeado comandante geral das Divisões Militares na região do Rio Doce, no leste de Minas Gerais, incluindo o atual município de Santana do Paraíso.

Foram inúmeras as incursões de Marlière pela região. Entre outros feitos, ele foi o responsável, em 1827, pela chegada do maquinário para a primeira indústria da região, trazida pelas águas do rio Doce – na época chamado de Chopotó dos Coroados –, fundada pelo também francês Jean de Monlevade. Marlière foi também importante fonte de informações para os alemães Spix (zoólogo) e Martius (médico e botânico), autores de “Viagem pelo Brasil”, um dos principais relatos do início da colonização do Brasil.

 

De Guidoval a Paraíso

Guido Marlière chegou à região do Rio Doce em 1818, como inspetor da Divisão Militar, estabelecendo seu quartel numa fazenda da região da Mata, na cidade atual de Guidoval (Guidowald, ou “Floresta do Guido”). Na região, ele construiu um presídio, onde hoje localiza-se a cidade de Visconde do Rio Branco, para onde eram levados, de barco e a cavalo, os degredados, índios e desordeiros aprisionados na região hoje conhecida como Vale do Aço.

Até o seu falecimento, no dia 5 de junho de 1836, Guido Marlière teve um papel importante no processo de catequização dos indígenas que ocupavam a região. São poucas as imagens relativas ao oficial francês. Uma das poucas são alguns cachos de seus cabelos, cortados no dia do seu sepultamento, por sua esposa, Maria Victória da Conceição Rosier, e guardados num relicário, juntamente com um retrato a óleo do seu rosto, que tornou-se sua imagem mais conhecida.

Guido Marlière era devoto de Nossa Senhora de Sant’Ana, que emprestou nome e se tornou padroeira de diversas cidades, entre as quais Santana do Paraíso.

 

“Apaziguador”

A primeira biografia de Guido Marlière foi escrita pelo médico, cientista e pesquisador Manoel Basílio Furtado, em 1891, também o responsável pela pintura do único quadro conhecido do “Comandante de todas as Divisões do Rio Doce”. Esse quadro foi feito com base na imagem do relicário de sua viúva, emprestado por sua neta e herdeira Maria Flávia Marlière.

Visto como “apaziguador e educador” dos indígenas – função que exerceu por 23 anos –, Marlière ganhou posteriormente, em 1928, um busto com sua efígie, instalado na cidade de Guidoval e inaugurado pelo então governador de Minas, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada.

 

A CIDADE EM NÚMEROS

Área territorial – 276,067 Km²

População – 32.232 (20016, IBGE)

Densidade demográfica (hav/Km²) – 98,76

Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – 0,685 (2010)

Produto Interno Bruto (PIB) a preços correntes – R$ 451.022,00 (2014)

PIB per capita – R$ 14.575,89 (2014)

Empresas instaladas – 545 (2014)

Pessoal ocupado assalariado – 5.440

Pessoal ocupado total – 6.124

 



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